"O dia permanece abafado e úmido. As nuvens parecem nao querer o céu, preferindo a proximidade com o asfalto sujo da cidade. Para ser sincero, não consigo definir claramente se são mesmo as nuvens que desceram, ou se é a fumaça que sobe densa no horizonte estampado da janela do meu escritório. É fato, entretanto, que o cenário não se apresenta favorável àqueles que pretenderiam usá-lo como inspiração para poemas de amor.
Sigo em minha prosa poética falando da morte - ou quase morte - de uma cidade que, em um domingo típico, mostra-se desabitada. É bem provável que, indo ao shopping - único refúgio, ao que parece, do provinciano povo do lugar onde moro -, cruze eu com centenas de pessoas, desconhecidas ou não, que, na falta de opção melhor, recorrem a esse subterfúgio. Prefiro a prisão de minhas janelas altas de apartamento à liberdade supervisionada daqueles que recorrem ao lugar comum.
Minha tristeza seca - porque sem lágrimas - é protagonista de um ato do qual eu nao quereria sequer o papel de figurante, quanto masi de coadjuvante em que me encontro. Ao longe escuto gargalhadas que não são minhas, mas de alguém que não ri de mim, nem tampouco para mim. Apenas ri. E eu nao choro. Quero, necessito, desejo, venero... mas não choro.
O luto não é do ambiente, mas apenas meu,. O ar põe-se de cinza, e essa bem pode ser a cor da felicidade, quando se quer.
As letras aparecem no monitor, meus dedos pressionam pelas teclas, que têm vontade própria.... não sou mais eu quem escreve. Cochilo, durmo, sonho, acordo, desespero-me: as palabvras não são minhas, a vontade não é minha, a vida não é minha. No canto do meu olho percebo brotar uma pequena gota. As imagens embaralham-se, o sol se esvai, o pensamento se perde. E também o sentido.
A vida pede uma nova chance.
Em um longo suspiro, dou-lha: 'nada como um dia após o outro.' "
(MAIO, José L. Sopro. Outubro/2011)
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